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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

FATO OU INTERPRETAÇÃO?

Você já percebeu que diante de um fato que gera impacto, ou, até mesmo diante de ocorrências simples, surgem vários relatos sobre a mesma situação baseados na maneira como cada um percebe, e não necessariamente no fato como ocorreu? Agora pense, você age baseado no que parece ser ou, naquilo que infere? Não é pouco o número de pessoas que se convencem sobre determinada situação sem inferir se o motivo do convencimento, ou da atitude tomada em decorrência disso, foi um fato ou uma interpretação a partir de alguma referência interna que possui ou adquiriu na ocasião.

Certa vez, Heródoto, historiador da Grécia antiga, elucidou que havia um rei muito poderoso que, sentindo-se ameaçado pela força do exército do reino vizinho, ainda mais poderoso, resolveu invadir e atacar o outro rei antes que fosse atacado primeiro. Pensou que ao atacar antecipadamente, isso lhe garantiria a vitória. Porém, antes de sair na empreitada de ataque, ele preferiu consultar o oráculo de Delfos para saber o que iria acontecer após a invasão premeditada. Então, o oráculo ao ser consultado respondeu assim, caso houvesse mesmo o grande confronto: “O vencedor será o grande rei”.

Após isso, confiante na vitória o rei invadiu o reino vizinho. Mas, foi obrigado a se recuar e fraquejou. O inimigo vendo-o enfraquecido invadiu as terras e tomou posse do reino dele. Derrotado, o rei perdedor foi reclamar no oráculo que a previsão dele não tinha dado certo e que ele falhou. O oráculo novamente respondeu que a previsão que ele tinha dado era correta: “O vencedor será o grande rei”. O que aconteceu? Era a interpretação de que ele, o perdedor, era o grande rei, que estava errada. Assim, o modo como as pessoas interpretam a realidade seja na empresa ou nos aspectos pessoais depende das crenças e valores que professam. Entretanto, interpretar é sempre interpretar segundo aquilo em que se crê, o que nem sempre coaduna com os fatos.

Imagine a seguinte situação. Você é o gerente de uma empresa e após contatar um novo colaborador, passa a se incomodar com o desempenho dele nos primeiros meses de trabalho. Então você começa a pensar que esse subordinado por ser um novato na empresa, não está nenhum um pouco comprometido com o trabalho, porque os resultados não aparecem, apesar de você ter explicado como ele deveria exercer a função assim que foi contratado. Nessa história, o que é fato? O que é interpretação?

Fato. O colaborador realmente é novo no ambiente de trabalho. Agora, afirmar que ele está descomprometido baseado em um ponto de vista sem certificar-se de tal comportamento poderá ser arriscado e colocar em risco sua carreira de gestor que lida com pessoas. Sabe-se que para uma causa pode existir um número incontável de efeitos. Então, por que você acha que pelo fato dele não está atingindo os resultados esperados, esse novo integrante não estaria comprometido com a empresa? É comum os casos de gestores de áreas que simplesmente rotulam os membros da equipe sem levantar dados precisos sobre a forma de atuação, seja individual ou de equipe, sem entrevistar, sem observar os processos e ferramentas disponibilizados pela empresa, ou a metodologia e tipo de treinamento aplicado ao perfil de cada integrante.

Simplesmente afirmar que alguém está alegre apenas porque deu um sorriso, ou que esteja triste só porque não esboçou um olhar expressivo, não é fato, é só um ponto de vista, uma interpretação elaborada, por vezes com base apenas no conteúdo interno de quem avalia. Isso difere quando um comportamento é inferido ou constatado através de testes, entrevistas ou qualquer outra metodologia que esteja além de achismos ou do senso comum. Mesmo que várias pessoas concordam com um mesmo ponto de vista, a exemplo das crendices populares que permeiam coletivamente, você deve distinguir entre o que é fato e o que é interpretação.

Segundo o psiquiatra Eric Berne, criador do método psicológico Análise Transacional, sobre os papéis que vivemos na vida através dos estados de ego, “uma pessoa age e sente, não de acordo com o modo como as coisas realmente são, mas de acordo com a imagem mental que se têm dessas coisas”. Talvez isso evidencie a discrepância que existe entre o que vem das interpretações e da veracidade. Afinal, quando algo é mal interpretado, pode ser prejudicial a todos.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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