O OUTRO LADO DA FILA
Artigo de Jair Donato*
O que você faz quando está numa fila à espera
de ser atendido? Você já percebeu como acontece a formação de uma fila? Na
maior parte das vezes a sequência é sempre a mesma, uma pessoa à frente,
seguida de outras, sem contar aquelas que ficam com uma companhia ao lado para
fomentar as futilidades do momento. É assim praticamente em todo lugar. É incrível
perceber o que a maioria das pessoas faz quando está em uma fila. É isso mesmo
que você está pensando: Nada!
Seja na fila do banco, do
embarque, do protocolo, para compra de um ingresso, do show, enfim, o assunto
que mais gira é em torno dos reclames. Reclama-se do tempo, da demora, do
atendimento, do atendente, do local, da falta de assento, do tamanho da própria
fila, do frio ou do calor. Reclama-se também do salário do mês seguinte porque
o atual já nem existe mais, das dívidas, da política, do governo, do modo de
vestir de alguém que passa do outro lado da rua, do vizinho, do que poderia ter.
Geralmente estende-se uma sequência quase que interminável. Há filas que se
assemelham a um muro de lamentações.
Numa fila existem alguns
personagens divertidos, ou pelo menos tentam ser, que contam piadas e até
alegram o ambiente. Enquanto outros expõem as próprias frustrações, mágoas,
falácias sobre o chefe, críticas sobre o time adversário e comentários que não
agregam valor nenhum a moral humana. É cada pauta que chega a deprimir os
transeuntes da localidade. Tem ainda aqueles que aproveitam e repassam com quem
estiver próximo, o capítulo da novela do dia anterior, expondo a indignação,
sarcasmos e contentamentos com os personagens em questão. Todos esses perfis de
usuários de longas filas possuem algo em comum, detestam-nas e procuram passar
o tempo de qualquer maneira, sem tirar proveito do que elas podem oferecer.
Contudo, existem os raríssimos
casos de gente vista como inusitada, louca, pois é assim que outrora já me adjetivaram.
São pessoas que curtem o ambiente das filas, algo avesso a maioria, fazem dele
um espaço para agregar conhecimento. Sempre fui beneficiado por esse espaço.
Principalmente, na minha adolescência, pois devido ao trabalho, tinha mais
tempo para exposição em filas do que para visitação a bibliotecas. Não mensurei
o quanto, mas muito conhecimento eu adquiri com proveitosas leituras nas enormes
filas que já percorri.
O que quero enfatizar é que
existe o outro lado da moeda, quer dizer, da fila. Sabe o motivo que faz o
brasileiro ler pouco, cujo índice é uma vergonha em relação a outros países? Em
parte é porque essa gente ainda não sabe o valor que uma fila proporciona. É
isso mesmo. Afinal, a maneira de comportar-se em qualquer ambiente é também um
fator cultural e as pessoas não são educadas para aproveitar bem essa
oportunidade e transformá-la em pequenos momentos de felicidade, como a
descoberta de que uma leitura proporciona. Descobri que se cada pessoa lesse
sempre que estivesse numa fila, teria um grau cultural melhor e teríamos um
maior índice anual de edição de livros por habitante.
Quero incitar os usuários das
filas, geralmente pela motivação do trabalho ou por motivos pessoais, os que
vão todo dia, os que vão semanalmente ou uma vez ao mês, até mesmo os casuais, os
convoco para fortalecer esse movimento para que vejam a fila sob outro ponto de
vista. Mais ainda, que um use a fila em benefício próprio, como agente de
informação, reflexão e conhecimento, e se torne um multiplicador cultural por
meio da leitura. Leia uma página, no mínimo, em cada fila que entrar. Então
será notório o resultado disso no decorrer da vida e perceberá o aumento da
probabilidade de se dar bem na carreira profissional e no convívio social. É
isso que acontece se cada um criar e se permitir aproveitar essa excelente
oportunidade, logo se tornará um hábito.
Confesso, desde minha
adolescência adquiri esse hábito e parte de tudo que já li, devo às enormes e
incontáveis filas em que estive. E sempre que surge, e não são poucas as filas
brasileiras, me porto sempre preparado com meu exemplar a tiracolo. Tudo na
nossa vida depende da maneira como vemos e encaramos, qualquer que seja a
situação. Parece engraçado, mas, quantas vezes já cheguei a desejar que o
atendente adiasse um pouquinho minha chamada no painel, assim daria tempo
chegar ao fim do capítulo, que estava logo ali, em algumas linhas à frente. Cômico?
Talvez não, estratégico. É isso que acontece quando você vê e vivencia os
pequenos fatos e oportunidades do dia a dia sob outro ângulo.
O outro lado da fila é um espaço onde
o tempo não registra a demora. O tempo é real, pois não fica vazio na mente,
nem os pensamentos são perdidos devido ao foco. Tampouco causa irritação ou
estresse. Sua atitude em relação às filas também pode ser diferente e poderá
utilizá-las a seu favor. Na verdade, uma fila é como a própria vida. Dependendo
do lado em que você estiver, ela poderá ser chata ou o melhor aprendizado. Gosto
da fila sim, porque a vejo por outra perspectiva, a do conhecimento. E moro em
um país onde fila existe em abundância, e longas. Pode ser hilário, mas é fato.
Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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