LADRÃO DE TEMPO
Artigo de Jair Donato*
Existem
várias formas de roubar os outros. Talvez você possa considerar que um
ladrão seja apenas alguém que venha subtrair algo material de outrem. Isso é crime, claro. No
entanto, na correria do dia a dia em que as pessoas vivem, seja no contexto
organizacional ou pessoal, marcar um compromisso e cumpri-lo com atraso, ou,
pior ainda, deixar o outro à espera sem dar-lhe satisfação, é uma atitude de
quem rouba o bem mais precioso do que um objeto: Tempo. Pois é ladrão também aquele que
rouba o tempo dos outros quando marca um compromisso e deixa-o a espera, ou
quando frustra a expectativa do outro, quando promete e não cumpre. Toda
vez que se estabelece uma comunicação com ausência de feedback, principalmente quando o receptor depende dele para
continuidade das atividades, há um “roubo” de tempo e de paciência, fato que
causa uma espera ansiosa e estressante.
Gente que diz
"daqui a cinco minutinhos estarei chegando", quando na verdade sabe
que não é verdade, não entende porque é acometida por alguns tipos de doenças
que se manifestam no corpo como reflexo dessa atitude mental, conforme
princípios psicossomáticos. Erroneamente há quem pense que o sinônimo de
feedback seja a solução do que o
outro espera; nem sempre. Em muitas situações, justamente por não haver solução
de algo é que se deve dar feedback, que é apenas um retorno, termo
que advém da eletrônica e significa retroalimentação. Mesmo que a resposta seja
um não, ou um comunicado de que o resultado esperado terá um tempo bem maior do
que o almejado, ou mesmo que ele não será viável, comunicar isso ao receptor é
importante.
Quando o líder de uma equipe faz com que os liderados fiquem na
expectativa e se frustram por não saberem que rumo tomar ou como está o
andamento do que foi iniciado, por exemplo, é um tipo de subtração de algo mais
valioso do que um objeto físico, pois afeta, de acordo a situação e o momento,
os fatores emocional e psicológico. O líder deve repensar quando esse tipo de
atitude se torna um comportamento repetitivo nas ações e no relacionamento
interpessoal. Pois isso pode resultar em menor produtividade, menor confiança e
pouca credibilidade entre as pessoas envolvidas. Na verdade, isso reflete mais
o comportamento de um chefe do que de um líder.
O líder responsável sabe que não deve se ausentar e deve dar
satisfação pela decorrência de qualquer que seja a situação, sem vergonha de
dizer não, se preciso for, pois um parecer, uma opinião, uma resposta é antes
de tudo, uma forma de consideração ao interlocutor. Assertividade e clareza na
comunicação deve fazer parte da postura dos líderes em qualquer relacionamento
interpessoal. O fato é que sem feedback
o líder pode comprometer a confiança entre os interlocutores e causar
insatisfação. A falta do retorno claro e preciso significa desinteresse e
desconsideração. Por que dar um feedback?
Além de consideração ao interlocutor, é uma questão de responsabilidade que
gera credibilidade e confiança ao líder.
Há casos em que após enviar proposta para uma empresa, ocorre uma demora
significativa para receber feedback,
isso quando recebe. A cultura do “quem for interessado que vá atrás” parece ainda
muito comum. Por que isso ocorre com frequência? É porque o ser humano, embora solicite algo,
possui a tendência mais centrada em si do que na consideração ao outro, mesmo
que não intencional. A prova disso é que se a proposta estiver dentro do que
ele espera, sendo algo de que realmente necessita em curto prazo, de imediato
haverá um retorno. Mas, caso não o faça interesse, também parece não haver
consideração em ao menos dizer ao emissor da proposta que não será possível
fechar o negócio proposto. Essa é uma outra situação que caracteriza roubo de
tempo, de expectativa e as vezes até de paciência dentro das organizações.
Há quem dá feedback apenas
quando lhe é oportuno. Ou seja, se há interesse próprio ou que de alguma forma tal
ação o favoreça, a pessoa liga, passa e-mail, cutuca, visita, enfim, faz um
acompanhamento para lembrar o receptor de todas as formas. Mas, quando o
assunto não lhe faz interesse, mesmo sendo importante a outra parte, quase não
existe retorno. Afinal, dar feedback nem
sempre é oferecer a solução esperada, mas é um retorno, que sem ele pode
comprometer a confiança entre interlocutores. Valorizar o tempo dos outros é
uma forma de assertivamente dizer a eles que você também espera que o seu
tempo, sua paciência e sua disponibilidade sejam valorizados.
*Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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