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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

LADRÃO DE TEMPO
Artigo de Jair Donato* 

Existem várias formas de roubar os outros. Talvez você possa considerar que um ladrão seja apenas alguém que venha subtrair algo material de outrem. Isso é crime, claro. No entanto, na correria do dia a dia em que as pessoas vivem, seja no contexto organizacional ou pessoal, marcar um compromisso e cumpri-lo com atraso, ou, pior ainda, deixar o outro à espera sem dar-lhe satisfação, é uma atitude de quem rouba o bem mais precioso do que um objeto: Tempo. Pois é ladrão também aquele que rouba o tempo dos outros quando marca um compromisso e deixa-o a espera, ou quando frustra a expectativa do outro, quando promete e não cumpre. Toda vez que se estabelece uma comunicação com ausência de feedback, principalmente quando o receptor depende dele para continuidade das atividades, há um “roubo” de tempo e de paciência, fato que causa uma espera ansiosa e estressante.

Gente que diz "daqui a cinco minutinhos estarei chegando", quando na verdade sabe que não é verdade, não entende porque é acometida por alguns tipos de doenças que se manifestam no corpo como reflexo dessa atitude mental, conforme princípios psicossomáticos. Erroneamente há quem pense que o sinônimo de feedback seja a solução do que o outro espera; nem sempre. Em muitas situações, justamente por não haver solução de algo é que se deve dar  feedback, que é apenas um retorno, termo que advém da eletrônica e significa retroalimentação. Mesmo que a resposta seja um não, ou um comunicado de que o resultado esperado terá um tempo bem maior do que o almejado, ou mesmo que ele não será viável, comunicar isso ao receptor é importante.

Quando o líder de uma equipe faz com que os liderados fiquem na expectativa e se frustram por não saberem que rumo tomar ou como está o andamento do que foi iniciado, por exemplo, é um tipo de subtração de algo mais valioso do que um objeto físico, pois afeta, de acordo a situação e o momento, os fatores emocional e psicológico. O líder deve repensar quando esse tipo de atitude se torna um comportamento repetitivo nas ações e no relacionamento interpessoal. Pois isso pode resultar em menor produtividade, menor confiança e pouca credibilidade entre as pessoas envolvidas. Na verdade, isso reflete mais o comportamento de um chefe do que de um líder.

O líder responsável sabe que não deve se ausentar e deve dar satisfação pela decorrência de qualquer que seja a situação, sem vergonha de dizer não, se preciso for, pois um parecer, uma opinião, uma resposta é antes de tudo, uma forma de consideração ao interlocutor. Assertividade e clareza na comunicação deve fazer parte da postura dos líderes em qualquer relacionamento interpessoal. O fato é que sem feedback o líder pode comprometer a confiança entre os interlocutores e causar insatisfação. A falta do retorno claro e preciso significa desinteresse e desconsideração. Por que dar um feedback? Além de consideração ao interlocutor, é uma questão de responsabilidade que gera credibilidade e confiança ao líder.

Há casos em que após enviar proposta para uma empresa, ocorre uma demora significativa para receber feedback, isso quando recebe. A cultura do “quem for interessado que vá atrás” parece ainda muito comum. Por que isso ocorre com frequência?  É porque o ser humano, embora solicite algo, possui a tendência mais centrada em si do que na consideração ao outro, mesmo que não intencional. A prova disso é que se a proposta estiver dentro do que ele espera, sendo algo de que realmente necessita em curto prazo, de imediato haverá um retorno. Mas, caso não o faça interesse, também parece não haver consideração em ao menos dizer ao emissor da proposta que não será possível fechar o negócio proposto. Essa é uma outra situação que caracteriza roubo de tempo, de expectativa e as vezes até de paciência dentro das organizações.

Há quem dá feedback apenas quando lhe é oportuno. Ou seja, se há interesse próprio ou que de alguma forma tal ação o favoreça, a pessoa liga, passa e-mail, cutuca, visita, enfim, faz um acompanhamento para lembrar o receptor de todas as formas. Mas, quando o assunto não lhe faz interesse, mesmo sendo importante a outra parte, quase não existe retorno. Afinal, dar feedback nem sempre é oferecer a solução esperada, mas é um retorno, que sem ele pode comprometer a confiança entre interlocutores. Valorizar o tempo dos outros é uma forma de assertivamente dizer a eles que você também espera que o seu tempo, sua paciência e sua disponibilidade sejam valorizados.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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