ABORTO DE
UM SONHO
Artigo de Jair Donato*
O
aborto de uma criança é um ato considerado por muitos como atitude imoral e
abominável, principalmente, quando ocorre em face da vaidade. É uma prática
desprovida de senso ético e de amor próprio quando justificada por escolha
estética. Mesmo sendo um ato legalizado em vários países, para quem possui princípios
fortes sobre valorização à vida, continua sendo um crime. Mas, quem defende a
esmo a prática do aborto, parece considerar apenas o tamanho minúsculo do feto,
baseando-se possivelmente numa visão permeada de simplismo e materialista, diferença
que não é justificável quando se trata do respeito à vida.
No
entanto, a polêmica existente em torno desse tema se deve pelo fato de ser uma
ocorrência ligada aos valores que cada um possui. Mas, seria mesmo essa a única
forma de aborto provocada pelo homem? Seria esse o único aborto que tornaria o
ser humano em vítima? O que faz o indivíduo viver no mundo sem autoexpressão e
transitar pela linha da mediocridade, que pode durar a vida inteira? Existem outras
formas de aborto à natureza humana. E uma delas se dá quando o homem perde a
capacidade de cultivar o próprio sonho e vive sem a perspectiva de um ideal.
São muitos os que encontram a oportunidade de nascer, e, após adultos, abortam
o potencial latente neles. Isso ocorre quando o indivíduo deixa de acreditar na
possibilidade, não se esforça o necessário, sequer pensa numa missão de vida.
Confina-se num processo de autodestruição com a justificativa de que não possui
sorte, ou sabe-se lá, Deus quisesse que fosse assim.
“Sonho”
aqui discorrido, não se trata de fantasias ou processos psíquicos que ocorrem
durante o sono. Falo do sonho delineado por meio de um projeto de vida
mensurável. Você possui um? É um detentor de aspirações idealizadoras? Sabe
qual é sua missão nesta vida? Tem uma visão de futuro? O que poderia trazer-lhe
a sensação de autorrealização enquanto ser humano? Infelizmente, muitos abrem
mão da própria razão de existir e desistem na primeira ou na segunda tentativa.
Então, abortam a própria chance de autoexpressabilidade. Claro que esse não é
um ato condenável por qualquer lei humana, mas destrói vidas, limita destinos e
sucumbe a quem dele não sai.
Ora,
o mundo atual não existiria se não houvesse os sonhadores, os que projetaram e
acreditaram em grandes ideais. Podemos afirmar que a cultura atual, a
interatividade social e tecnológica que possuímos é o resultado daqueles que
sonharam no passado. Na vida, só há duas escolhas, seguir avante ou recuar.
Regredir não significa desfazer ou desaprender o que já sabe. Basta ficar
parado no tempo, sem atualização e novos aprendizados. Em tempos de
globalização, quem corre, anda. E se anda, está parado.
Uma
consulta ao Guines Book, revela o
desbravamento de muitos sonhadores. A biografia dos líderes que deixaram os próprios
nomes marcados na história comprova que todos eram fortes sonhadores. Tudo de
prático e funcional que hoje está disponível é fruto da mente idealizadora dos
predecessores e contemporâneos. A invenção do avião, da lâmpada, do automóvel,
a cura de diversas doenças, tudo partiu da mente daqueles que um dia sonharam e
dedicaram-se a nobres ideais.
Há
pessoas que escolherem caminhos íngremes, quando decidiram seguir por qualquer
caminho sem o escrúpulo de ferirem a si mesmos. São os profissionais frustrados
que queriam ser médicos, por exemplo, mas, por algumas vezes reprovados no
vestibular, fizeram outro alheio ao próprio ideal. Tomaram a famosa segunda
opção como atalho. Terrível escolha. É como se nunca chegassem a lugar algum. É
grande o número de advogados, arquitetos, professores, assistentes sociais e
tantos outros profissionais que existem na sociedade, descontentes consigo mesmos,
executando trabalhos sem afinidade com as aptidões que possuem, como se fossem
impostores diplomados. Essa é uma das causas do estresse, mal comum no âmbito
profissional do mundo competitivo. Tudo porque não lutaram até o fim, não se
esforçaram mais um pouco.
A
biografia de Thomas Edison, também inventor do fonógrafo, registra que ele persistiu
por mais de cem vezes, até encontrar o filamento ideal para que a lâmpada se
tornasse uma realidade. No entanto, ele declarou que não teve cem fracassos. Teria
encontrado mais de cem formas de não fazer uma lâmpada. Genial essa atitude
mental, somente os vencedores e campeões a possui. Mas, todos possuem a
liberdade de sonhar e agir, e detém potencial para isso. Portanto, é preferível
o esforço, não o aborto. Tudo vai depender da escolha, e da atitude.
*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de
desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de
Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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