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terça-feira, 5 de agosto de 2014

ÉTICA INTRAUTERINA
Artigo de Jair Donato*

Minha experiência como docente tem me permitido ouvir diversas respostas sempre que pergunto sobre ética aos acadêmicos dos cursos em que ministro aula. Este é um tema de reflexão que independe da disciplina aplicada, por se tratar de um tema que deve ser trabalhado na transversalidade.

Dentre as várias definições, muitas são repetidas, miradas em conceitos bem articulados sobre o assunto. Mas, certa ocasião houve uma resposta de um estudante recém-adentrado ao ambiente acadêmico que me chamou a atenção por dois motivos. Primeiro, pela naturalidade que ele teve ao se expor. Segundo, pelo conteúdo que ele abordou.

A opinião dele me fez refletir sobre como está o inconsciente coletivo da sociedade. Pois simplesmente disse que o significado que melhor poderia ser dado para ética seria “utopia”. Pensei por instantes no que aquele jovem havia dito e antes de ouvir outras definições, resolvi provocar o início de uma discussão. Utopia? Sim. Estaria aquela definição errada? Aquele cidadão falou algo sem pensar?

Vi naquele momento uma longa distância entre a realidade de um mundo ético e a postura dos líderes atuais, e como ocorre essa influência. Seja na área da política, da administração, da religião, da família ou outra qualquer, de alguma maneira esses campos serviriam de referenciais para a afirmação daquele acadêmico. Pois o que ele afirmou certamente o disse pautado nos exemplos cotidianos apresentados à sociedade, por meio das instituições corporativas, governamentais e demais organizações. Ele não se valeu do conceito, ou seja, da teoria acerca do que deveria ser ética. Tal resposta seria apenas simpática, porém incongruente com o comportamento da maioria das pessoas que provavelmente repete definições elaboradas.

A ética não pode e nem deve ser um conceito, modismo ou uma resposta pronta, como aqueles que são fixados nas paredes de muitas empresas ou nos gabinetes políticos que sequer coadunam com os atos praticados. O delírio pelo poder, pela competitividade e a visão superficial sobre valores e princípios morais, que são comuns no mundo contemporâneo, se dá continuamente pela incongruência entre discursos e práticas de gente que se porta nos papeis de liderança sem ao menos se importar com o exemplo de ética que deveria ser para uma nação inteira.  

Ética, afinal, tem de ser comportamento. É necessário que resida na consciência do cidadão. Defendo a ideia de que ética precisa fazer parte da educação intrauterina. Ou seja, o ser humano, desde a barriga da mãe, já deveria receber as primeiras noções sobre ética. No entanto, para garantir uma sobrevivência social saudável será preciso que o indivíduo que já não está mais no ventre materno e sim no seio da sociedade, reveja urgente a distante visão que possui sobre comportamento ético. E isso se faz somente por meio de atitude.

Vivemos em tempos que em função das alterações climáticas se torna necessário um planeta melhor para as gerações futuras. No entanto, deve-se lembrar da urgência de deixar filhos melhores, educados, dignos, responsáveis e éticos para o nosso o planeta, Isso só será possível pelo exemplo. Na verdade, o maior debate no futuro não será sobre ciência ou tecnologia. Será sobre ética e a moralidade humana.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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