A FEBRE DO
COACHING
Artigo de Jair Donato*
Na década de 1990 houve uma leva
de gente embrenhada numa ferramenta que virou modismo no Brasil, a Programação
Neurolinguística, popularmente conhecida como PNL. As pessoas tratavam essa
ferramenta, que propicia a excelência na comunicação, como se fosse receita de
bolo e achavam uma pomposidade afirmarem que tinham cursos e trabalhavam com
PNL. De fato, como outras modalidades, é uma ferramenta que produz resultados,
mas que não se torna útil nos domínios de aventureiros. O que restou depois da
febre? Hoje, somente os profissionais sérios, que não a encaravam como modismo,
continuam na área.
Recentemente “bombou” outra
modinha que muita gente imaturamente se apressa em mostrar os certificados de
curto prazo e alterar as nomenclaturas funcionais com autodenominação de “coach”,
o profissional que aplica o processo coaching. Há gente que baniu todos os
títulos profissionais de até então, e simplesmente intitulou-se “coach”. Mais
uma vez, outra ferramenta séria e que produz resultados práticos, está sendo
encarada como se fosse receita de bolo. Muitos encaram a atividade como se
fosse daquele tipo de raizeiro que ao oferecer uma garrafada, afirma ser boa
para todos os males. É incrível a capacidade do ser humano de se fascinar,
alienar-se.
Conheço o coaching desde o início
dos anos 2000, época em que muita gente sequer interessava pelo assunto, outro tanto nem o conhecia. Trabalho
na área de gestão de pessoas há quase duas décadas, sei da eficácia dessa ferramenta
quando aplicada coerentemente, que se trata de uma prática de ajuda às pessoas
a atingirem resultados, mais sei também dos limites dela. É uma pena que há
quem após um curso de breves módulos, inebria o ego com uma certificação
internacional, e opta por intitular-se “profissional coach”, o que não é uma
profissão, e acaba por queimar a imagem de muitos que levam a sério a
habilidade de desenvolver pessoas, otimizar resultados nas equipes e
potencializar o tempo. Virou comércio, pois a oferta desses cursos prontos é
enorme, preços altos, cujo foco está mais na certificação do que na competência
que a própria ferramenta propõe. O coaching não pode ser visto com fascinação,
como se fosse paixão de adolescente, como foi na PNL. Coaching é um processo e
não pirâmide, a exemplo de tantas mascaradas de marketing de relacionamento que
só alienam a massa.
Por mais poderosa que seja uma
ferramenta de gestão, se for encarada como amadorismo, pela euforia do momento,
ela perde o valor. Diz um pensador oriental que até o bem, se aplicado de
maneira inadequada, deixa de sê-lo e produz efeito contrário. A superficialidade
é um fator agravante diante disso. No mercado de trabalho e no ambiente
acadêmico, recebo depoimentos frustrantes de gestores que são praticamente
obrigados a fazerem sessões de coaching dentro empresa porque a chefia achou
por bem que isso era bom para aumentar os resultados. Então contrata um
profissional coach de renome, e todos precisam passar pelas sessões. Como
assim, imposição? Sim, muitos líderes de empresas não entenderam a ferramenta e
praticamente impõem aos dirigentes que lideram, só porque eles próprios fizeram
um curso de imersão, e acharam oportuno enfiar isso garganta abaixo, sem o
respeito ao perfil, ao desejo e ao tempo de cada um. Porém, quando há um mínimo
grau de maturidade, percebe-se a falha e que isso não é uma varinha mágica. Pois
em boa parte das vezes a cultura da própria organização sequer combina com a
inserção do processo.
Antes, querer faz parte do processo. O
filósofo Sêneca dizia quem o desejo faz parte da cura. Sem entender com
maturidade o processo de coaching, por mais que ele tenha potencial, não
atenderá a isso, por essa razão muita gente apenas fica fascinada, empolgada, e
por ver os demais na mesma onda, seguem-na. Mas, é como chama que logo se apaga
ao vento.
Penso que a criticidade sobre
tudo aquilo a que nos propusermos é fundamental. Uma boa prática de coaching
pressupõe que o coach, o profissional,
tenha um bom conhecimento antes de si mesmo. E isso não é do dia para a noite. O
processo do coaching é uma aprendizagem que permite atingir metas, solucionar problemas e desenvolver novas habilidades
e competências. Não se atinge isso com euforismo, na cultura do “oba-oba”.
Espero ver maior grau de maturidade no mercado de trabalho e na vida das
pessoas sobre essa concepção. Febre passa.
*Jair Donato -
Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor
universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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