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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A FEBRE DO COACHING
Artigo de Jair Donato* 

Na década de 1990 houve uma leva de gente embrenhada numa ferramenta que virou modismo no Brasil, a Programação Neurolinguística, popularmente conhecida como PNL. As pessoas tratavam essa ferramenta, que propicia a excelência na comunicação, como se fosse receita de bolo e achavam uma pomposidade afirmarem que tinham cursos e trabalhavam com PNL. De fato, como outras modalidades, é uma ferramenta que produz resultados, mas que não se torna útil nos domínios de aventureiros. O que restou depois da febre? Hoje, somente os profissionais sérios, que não a encaravam como modismo, continuam na área.

Recentemente “bombou” outra modinha que muita gente imaturamente se apressa em mostrar os certificados de curto prazo e alterar as nomenclaturas funcionais com autodenominação de “coach”, o profissional que aplica o processo coaching. Há gente que baniu todos os títulos profissionais de até então, e simplesmente intitulou-se “coach”. Mais uma vez, outra ferramenta séria e que produz resultados práticos, está sendo encarada como se fosse receita de bolo. Muitos encaram a atividade como se fosse daquele tipo de raizeiro que ao oferecer uma garrafada, afirma ser boa para todos os males. É incrível a capacidade do ser humano de se fascinar, alienar-se.

Conheço o coaching desde o início dos anos 2000, época em que muita gente sequer interessava pelo assunto, outro tanto nem o conhecia. Trabalho na área de gestão de pessoas há quase duas décadas, sei da eficácia dessa ferramenta quando aplicada coerentemente, que se trata de uma prática de ajuda às pessoas a atingirem resultados, mais sei também dos limites dela. É uma pena que há quem após um curso de breves módulos, inebria o ego com uma certificação internacional, e opta por intitular-se “profissional coach”, o que não é uma profissão, e acaba por queimar a imagem de muitos que levam a sério a habilidade de desenvolver pessoas, otimizar resultados nas equipes e potencializar o tempo. Virou comércio, pois a oferta desses cursos prontos é enorme, preços altos, cujo foco está mais na certificação do que na competência que a própria ferramenta propõe. O coaching não pode ser visto com fascinação, como se fosse paixão de adolescente, como foi na PNL. Coaching é um processo e não pirâmide, a exemplo de tantas mascaradas de marketing de relacionamento que só alienam a massa.

Por mais poderosa que seja uma ferramenta de gestão, se for encarada como amadorismo, pela euforia do momento, ela perde o valor. Diz um pensador oriental que até o bem, se aplicado de maneira inadequada, deixa de sê-lo e produz efeito contrário. A superficialidade é um fator agravante diante disso. No mercado de trabalho e no ambiente acadêmico, recebo depoimentos frustrantes de gestores que são praticamente obrigados a fazerem sessões de coaching dentro empresa porque a chefia achou por bem que isso era bom para aumentar os resultados. Então contrata um profissional coach de renome, e todos precisam passar pelas sessões. Como assim, imposição? Sim, muitos líderes de empresas não entenderam a ferramenta e praticamente impõem aos dirigentes que lideram, só porque eles próprios fizeram um curso de imersão, e acharam oportuno enfiar isso garganta abaixo, sem o respeito ao perfil, ao desejo e ao tempo de cada um. Porém, quando há um mínimo grau de maturidade, percebe-se a falha e que isso não é uma varinha mágica. Pois em boa parte das vezes a cultura da própria organização sequer combina com a inserção do processo.

Antes, querer faz parte do processo. O filósofo Sêneca dizia quem o desejo faz parte da cura. Sem entender com maturidade o processo de coaching, por mais que ele tenha potencial, não atenderá a isso, por essa razão muita gente apenas fica fascinada, empolgada, e por ver os demais na mesma onda, seguem-na. Mas, é como chama que logo se apaga ao vento.

Penso que a criticidade sobre tudo aquilo a que nos propusermos é fundamental. Uma boa prática de coaching pressupõe que o coach, o profissional, tenha um bom conhecimento antes de si mesmo. E isso não é do dia para a noite. O processo do coaching é uma aprendizagem que permite atingir metas, solucionar problemas e desenvolver novas habilidades e competências. Não se atinge isso com euforismo, na cultura do “oba-oba”. Espero ver maior grau de maturidade no mercado de trabalho e na vida das pessoas sobre essa concepção. Febre passa.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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