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terça-feira, 29 de julho de 2014

ANALOGIA DA FIGUEIRA SECA
Artigo de Jair Donato*

Você compraria uma fruta apenas pelo brilho? Há quem compre e depois percebe que era só o verniz da casca, mas por dentro o conteúdo estava podre. Como nos tempos de Jesus, hoje muitos vivem apenas pela aparência, ora mostrando-se como bons, ecologicamente corretos, mas que nada de útil oferecem ao mundo para que o torne melhor. É como aquele brilhante orador que profere palavras bem articuladas, envernizadas, impressiona plateias, mas se verificadas, nada de substancial se encontra nelas.

Reportando-se aos primeiros anos do calendário gregoriano, marcado pelo início do cristianismo, numa passagem bíblica é narrada que certa vez Jesus ao sair de uma localidade denominada Betânia, acompanhado pelos discípulos, teve fome. Ao longe avistou uma figueira e dela se aproximou para que degustassem alguns frutos. Mas, ao chegar-se a ela percebeu que não havia figos, havia apenas folhas, por não ser época propícia para frutos.

No entanto, os discípulos disseram que naquele momento Jesus lançou o desejo de que ninguém mais comesse o fruto daquela árvore. E no dia seguinte, ao passarem novamente pela figueira, ela já estava seca até a raiz. Então, um deles se dirigiu a Jesus lembrando-lhe de que aquilo seria o resultado do mestre ter amaldiçoado o pé de figo no dia anterior. Ao que Jesus naquele momento aproveitou para apregoar parte dos ensinamentos dele.

Numa interpretação míope, parece estranho a postura de Jesus, mas as histórias da vida dele na terra mostram ter sido ele um grande visionário e apregoou preceitos constatados em todas as eras, especialmente hoje. Se ao pé da letra, ele de fato secou ou não aquela árvore, que ninguém se apegue a isso, pois para um mesmo fato há diferentes interpretações. Jesus era um homem que utilizava parábolas, comparações e mensagens da própria natureza para fazer entender a visão que ele possuía sobre a vida. Não por acaso, ele escolheu fazer uma analogia entre a figueira e o a vida do homem.

Na antiguidade, muitos povos a consideravam como símbolo da fertilidade e da fecundidade. Hoje, com o cultivo, é um vegetal que produz durante o ano todo. A figueira que não dá frutos é um símbolo de uma existência que não se torna útil. Embora tudo tenha o tempo certo para que cada etapa se estabeleça, há quem perde todas as oportunidades de criar e estabelecer relações edificantes, mesmo diante dos vários meios disponíveis. Trata-se de quem vive em função de apenas ocupar o próprio espaço sem ocupar-se de contribuir para melhoria da sociedade com o potencial criativo e humano que possui.

Todos os sistemas e doutrinas, na política, no meio social, na administração ou na religião, que nada produzirem bem para da humanidade são estéreis, cujo fim deve ser a seca. O despertar de consciência através da escolha de cada um enquanto cidadão poderá ser a energia que irá eliminar essas fontes inúteis que existem na sociedade, que nada agregam, apenas usurpam, excluem o bem, defendem interesses mesquinhos e desconstroem o senso moral necessário ao mundo de hoje.

Conta-se que no sermão daquele dia da figueira seca, Jesus disse aos discípulos que tudo aquilo que cada um de fato acreditar firmemente sem hesitar, acontecerá. Ele declarou que o poder não estava somente nele, mas em todos. No dia que cada cidadão acreditar que pode mudar os fatos, seja na política como noutras mudanças relevantes ao bem coletivo, e entrar em ação com tal empenho, todos os políticos, religiosos e demais líderes estéreis que enganam com discursos prolixos, deixarão de existir, cairão por terra, pois se tornarão secos.

O mundo não precisa apenas de líderes hierárquicos, precisa da liderança de cada um, ou seja, da sociedade como um todo, do espírito de equipe. Somente assim bons frutos serão produzidos. Cada pessoa que se tornar um agente de mudança é como uma figueira frondosa e frutífera. A paz no mundo não poderá vir de árvores estéreis. A humanidade precisa ser alimentada por atitudes altruísticas.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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