INVERSÃO INCONSCIENTE
Artigo de Jair Donato*
Certa
ocasião quatro mendigos se encontraram sincronicamente numa encruzilhada da
Algéria: um turco, um árabe, um persa e um grego. Para celebrar o acontecimento
decidiram fazer uma refeição festiva. Então providenciaram uma cota e cada um
após o outro, despejava alguns trocados para ver quanto daria. Mas o que iriam
comprar com o dinheiro?
-
Uzum, disse o turco.
-
Ineh, disse o árabe.
-
Inghûr, disse o persa.
-
Staphilion, disse o grego.
Cada
um havia expressado o próprio desejo em um tom que parecia excluir qualquer
possibilidade de entendimento. Surgiu uma discussão violenta e teria havido ali
mesmo um conflito se um dervixe poliglota não tivesse aparecido entre eles e se
oferecido para revelar o que queriam dizer. Com palavras diferentes, explicou o
entendido, vocês quatro querem a mesma coisa: Uvas.
Este
conto de Gerard de Nerval é oportuno para uma reflexão sobre a forma de
expressão que o homem faz em prol da natureza e o cuidado com o meio ambiente.
Não há ninguém em sã consciência que não deseje viver bem e em clima agradável,
num lugar onde possa respirar, se alimentar e se servir das múltiplas opções
que a biodiversidade pode oferecer.
Mas,
qual a razão para destruir o próprio habitat? O que leva o ser humano a
destruir a grande casa em que vive? O comportamento atual do homem se confunde
em meio a uma inversão inconsciente, rumo à extinção do que representa a vida,
a partir do conflito acerca dos próprios interesses e o contexto sócio-ambiental.
O consumo irracional dos recursos naturais, a contaminação do solo, do ar e da
água é uma forma inconsciente de derrocar a própria caminhada e destruir o
caminho a percorrer para as gerações futuras. É como se dissesse a si próprio,
caso o inconsciente verbalizasse: já que eu destruo, mereço sofrer.
Assemelha-se mesmo a uma atitude de auto-sabotagem e perversão.
Foi
divulgado recentemente ao mundo o mais completo levantamento já feito sobre o
impacto humano nos oceanos, em uma das últimas edições da revista científica Science. O estudo mostra que não existe
mais uma gota de água nos oceanos que não tenha sido afetada de alguma forma
pela ação do homem. Quase metade da superfície oceânica, mais de 40% está sob
forte pressão de atividades humanas, como pesca e poluição. Apenas 4%
permanecem relativamente livres de impacto, nas regiões do Ártico e da
Antártida, onde o homem tem dificuldade para chegar.
E as
geleiras por lá andam derretendo em proporções assustadoras. Segundo os
cientistas que apresentaram esse estudo, os efeitos mais severos na água têm relação
com o aquecimento global. Áreas como costa Sudeste do Brasil, o Mar do Norte e
o Mar da China, onde há forte concentração de navios e atividade industrial, já
sofrem esse impacto da poluição de forma severa.
Mais
que políticas ou imposições, é preciso muita consciência acerca do que deve se
preservar e conservar, Essa é a condição essencial para manter a vida no ciclo
natural. Mas, as línguas ainda parecem estranhas quando se fala nesse assunto.
O capitalismo grita alto e o mercantilismo corrompe a ética e o senso moral
para resguardar o interesse de uma parcela que ainda produz sem repor o que destrói.
E essa não é uma linguagem comum quando se considera o tripé da sustentabilidade,
que além do crescimento econômico, visa fundamentalmente a relação prática e
efetiva com o social e o meio ambiente. O que fugir disso será sempre um pseudo
crescimento que não subsidia o que se perde.
O
escritor Rubem Alves disse que antes que qualquer árvore seja plantada, ou que
qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham
nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro não tem jardins por
fora. E nem passeia por eles. A humanidade é parte de um vasto Universo em
expansão, diz a Carta da Terra. Mas, o homem se mostra confuso, numa inversão
de valores sobre si mesmo e o meio ambiente. Pois nem sempre ele age como parte
e pensa como se fosse o centro. É preciso um repensar nas ações. Consciência urgente!
*Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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