TEIA DA VIDA
Artigo de Jair Donato*
A
relação entre homem e natureza se dá não apenas no âmbito biológico, ocorre
também em níveis culturais e psicológicos. Segundo o físico austríaco Frijot
Capra, a natureza é tão complexa que a denomina como uma “teia da vida”. Ela se
entrelaça e possui interdependência com todos os fenômenos. Uma breve viagem ao
tempo favorece a compreensão sobre o comportamento e o estilo de vida do homem
na Terra.
As
concepções da natureza criadas pelo ser humano ao longo da história foram
diversas, a começar pela visão sacralizada, quando conhecer os fenômenos
naturais era adorá-los, época de quase nada em conhecimento científico. A
natureza era então um mistério panteísta povoada por muitos deuses. Havia uma
concepção politeísta e também anímica. Ou seja, era repleto de espíritos para
cada fenômeno, pois eram atribuídos deuses para o fogo, para a água, para o
trovão, para a relva, para a chuva, a lista era infindável.
Veio
então a descoberta da agricultura e da pecuária, o início da dessacralização,
rumo ao profano. Daí surgiu o processo discrepante na relação do homem com o
meio ambiente. Ainda por volta do século VI a V a.C., no mundo helênico, os
pensadores deixavam de cultuar, eles simplesmente contemplavam a natureza e
refletiam sobre ela e os respectivos fenômenos. Alcançaram nessa época uma
visão mais interrogativa e holística que englobava a natureza, os seres nela
existentes, inclusive os humanos, e ainda os deuses.
Veio
depois, com o tempo, a visão judaico-cristã, uma semidessacralização que
retirou a cosmovisão holística e aderiu toda criação natural a uma entidade, laveh para os judeus, como processo da
história. Após esse rumo do povo hebreu-judeu, parte do mundo natural perdeu o
caráter de sacral.
Já
com a visão mecanicista da natureza, no auge cristão do ocidente, prevalece de
vez o postulado judaico-cristão no mundo. Fortalece concomitantemente no homem
a concepção de portar-se como o senhor da natureza. E que os corpos, sejam
humanos ou dos animais e até o Universo, funcionariam como meras máquinas
projetadas.
Por
fim, desde o início do século XX, com o desmoronar da concepção mecanicista,
veio o surgimento da incerteza, momento em que o absolutismo foi contestado,
características de uma visão organicista contemporânea. Surgem nesse contexto a
teoria darwinista, sobre a evolução das espécies, a teoria da relatividade e a aproximação
científica da vida, a exemplo da biologia molecular, quando o homem passou a ser
visto intrínseco ao contexto bioecológico, composto também por traços comuns à
natureza.
Essa
rápida passagem pela linha do tempo na relação do homem com o meio em que vive
e dele depende, apresentada detalhadamente pelo pesquisador Arthur Soffiati, traz
uma reflexão sobre como o próprio homem age atualmente, na cultura capitalista
neste novo século. As revoluções científica e industrial, pela via da
descoberta e do crescimento, foram momentos necessários. Contudo, nessa
transição, o homem passou a ter uma posição de como se fosse superior ao mundo
natural, que pudesse explorar e domar a vida nele existente.
No
entanto, o mundo natural continua sendo uma complexidade indomável pela astúcia
humana, com limites próprio e exposto ao tempo. O homem não é o centro, é como
se assim dissesse a natureza, caso se expressasse verbalmente. Mas é esse o
recado que ela deixa ao reagir bruscamente nesses tempos, ditos modernos, de
alterações climáticas.
Percebe-se
que não pode haver mudança alguma se não houver mudança de dentro para fora. É
um novo comportamento, mais reflexão e compreensão sobre a fragilidade da terra
que o homem precisa adquirir. A natureza não pede para ser sacralizada novamente,
basta que cada tenha por ela mais respeito, estima, cuidado, recuperação,
contemplação. Que todo ser humano acolha a tudo que é natural como parte de si,
da própria essência. Isso é repensar o modo de viver por aqui.

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