RAZÃO E CONSCIÊNCIA
Artigo de Jair Donato*
Como é sua postura ao se envolver numa discussão? Você se destaca
dentre os que preferem ficar com a razão, principalmente quando há evidências
fortes de que esteja certo? Ou costuma dar razão aos outros, mesmo que
aparentemente eles não possuem? Já pensou nas consequências que podem surgir
para você ao defender uma posição, como se fosse absoluta? Então reflita. Quantas
pessoas se travestem da empáfia como se donos da razão fossem e chegam a
humilhar os outros com tal postura. Ademais, mesmo sabendo posteriormente que
na verdade não estavam tão certos como achavam, fica difícil admitir isso e
ainda assim mantêm uma pose de absolutismo. Gente que age como “chefe”, do
estilo inflexível, que prefere impor ao invés de propor, incorre sempre em situação
dessa natureza.
Dizem que quando o outro não tem razão é um motivo a mais para que
você dê razão a ele. Conta-se que certa vez o presidente Getúlio Vargas teve de
resolver um entrevero entre dois comerciantes amigos dele, que tinham se
envolvido num conflito, o qual se desencadeou numa agressão física. O combinado
foi que o presidente decidiria quem tinha razão em relação à situação, e os
dois aceitariam o resultado sem questionar. Getúlio era hábil e resolveu receber os oponentes
separadamente. O primeiro comerciante entrou e lhe contou o caso, apresentando
as razões, justificativas e ataques ao segundo. Após ouvir atentamente a
argumentação, ponderou algumas questões e, ao final disse-lhe: “O senhor tem
razão”. O comerciante saiu feliz da audiência, satisfeito com a resposta de
Getúlio e, na saída, ainda desdenhou do adversário.
Então o segundo comerciante foi ter-se com o também amigo Getúlio, e preocupado
com a atitude do desafeto, entrou e expôs por sua vez a situação conforme o
ponto de vista próprio, cheio de ataques e reclames sobre o primeiro. Ao final,
ele perguntou ao presidente quem tinha razão. Getúlio, pensativo, observa-o com
seriedade durante certo tempo e diz-lhe o seguinte: “O senhor tem toda razão!”.
O segundo comerciante também sai feliz da audiência, afinal teria recebido uma
boa resposta do amigo.
Estarrecida com a situação, dona Darcy Vargas, esposa do presidente,
que a tudo assistira não se conteve e questionou: “Getúlio, acho que não está
absolutamente correto o que você acabou de fazer, desaprovo. Isto não deve
atitude de quem dirige uma nação como presidente, pois você deu razão a um
comerciante que lhe contou uma história de um jeito, e em seguida também deu
razão ao outro comerciante que lhe contou uma historia oposta. É assim que você
deseja conduzir este país? Você teria que ter atitude, pois você é o
presidente.”
Getúlio observa as ponderações da esposa atentamente, considera
seriamente o que ela falou e lhe responde com convicção: “Sabe, Darcy, você tem
razão”. Getúlio era um mestre da persuasão, e conhecia profundamente a natureza
humana. Ele sabia que era inútil criticar e contradizer aos outros, portanto
prestava bastante atenção às pessoas, interessava-se pelos seus problemas,
procurava dar razão a todos e, no final, as pessoas faziam o que ele queria.
Essa é uma postura sábia, pois há gente que sempre quer ter razão em
tudo e briga por ela. O ser humano poderá conviver bem melhor se preferir não
ficar com a razão. A tendência que as pessoas possuem de julgar aleatoriamente
o comportamento de outras ou emitirem um juízo como se fosse o final,
geralmente está relacionada com referências métricas internas que trazem
consigo mesmo, adquiridas através de experiências ou crenças próprias.
Paradigmas de repressão, de preconceito e de pouca afetividade podem
influenciar o comportamento de quem julga, acreditando que em determinadas
ocasiões, o moralismo seja o único caminho para fazer justiça. Uma criança
reprimida, provavelmente se tornará um adulto repressor, a não ser que no
decorrer da vida, consiga ressignificar essa referência. As organizações
contemporâneas ainda estão cheias de gestores assim.
As empresas abrigam chefes rígidos que possuem prazer em fazer
julgamentos. São os que preferem sempre ficar com a razão e muitas vezes
terminam por colherem traumas, desafetos e sabotagens. Julgamento, poder e
perversão transitam numa linha tênue, aplicados como válvulas de escape para
frustrações de muitos, às vezes se torna uma espécie de orgasmo para gente mal
resolvida. Claro que não há receita nem bula para conviver bem. No entanto, ao
invés de estabelecer julgamentos e até condenar quem estiver ao redor, é bom
fazer o seguinte questionamento, após um fato ou diante de uma atitude: Isso é
adequado? Ao invés de procurar encaixar tudo dentro do conceito de certo ou
errado, uma via de mão dupla que permite considerar o outro, gerar menor atrito
nos relacionamentos é procurar ver se o que está em questão é adequado ou
inadequado.
Então, antes de julgar um fato ou uma situação, o melhor é conhecer
quem está envolvido, em que momento se deu e como ocorreu? Assim poderá
perceber que tudo está correto, naquele momento, para aquela pessoa, na hora do
ocorrido e naquele lugar. Então, e se você se perguntar: e agora? Se entrego a
razão ao outro, fico com o que? Bem caro leitor, fique com a consciência, sem
dúvida. Ela o fará dormir tranquilo e será fator preponderante para melhor
qualidade de vida. Pois nem sempre quem fica com a razão, fica também com a
saúde, nem dorme tranquilo. Opte por analisar ao invés de julgar. Prefira a
consciência ao invés da razão. Muita gente pune a si mesma pelo fato de se
sentirem mal, mesmo tendo ficado com a razão, pelo fato de não ter ficado
também com a consciência tranquila. Você pode escolher entre ter razão ou ser
feliz.
*Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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