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quinta-feira, 6 de março de 2014

QUAL SEU GRAU DE RESILIÊNCIA? - Parte II
Artigo de Jair Donato*

E você, enxerga a si mesmo como um exemplo de resiliência? Há alguém na sua família com esse perfil? No artigo anterior foi abordado sobre habilidades que contribuem para desenvolvimento dessa competência. São vários os significados dados por estudiosos para explicar o que é resiliência, e um dos mais evidentes é superação. É claro que quanto maior o grau de resiliência, maior é a força para superar, pois quem supera facilmente é devido a resiliência que possui. No entanto, vejo que resiliência possui significado mais amplo que superação. Por exemplo, se um atleta treina bastante e a cada dia suplanta os recordes anteriores, tornando-se mais forte, competitivo e chega a vencer os próprios limites, isso é superar. Mas se esse mesmo atleta, na carreira ou na vida, sofrer perdas físicas, materiais, afetivas, emocionais ou psicológicas, e voltar a si sem se macular, não se desgastar internamente com isso, então ele é resiliente.

Há pessoas que com a perda de um ente querido, de um emprego ou qualquer outro aspecto valioso na vida, não se recuperam por décadas, outras se deprimem até o fim da vida. Há aquelas que até se levantam para sobrepor resultados anteriores, contudo, permanecem carregadas de ressentimento, vingança ou qualquer outro sentimento autodestrutivo; essa energia não é resiliência. É importante ressaltar que todos possuem a capacidade de se tornar resiliente, trata-se de uma competência comportamental. Porém, o que difere de um para outro é o grau individual que varia de acordo o ambiente, a cultura e as referências internas de cada um, mediante os acontecimentos na formação da história do ser.

Existem casos de pessoas que mesmo com a perda de membros físicos, ao terem pernas ou braços amputados, não se deixaram abater-se por lesões psicológicas, elas não só se levantaram e superaram, foram resilientes. Há quem após ter uma “unha decepada”, se inquieta e passa a remoer tal fato por longo tempo, em detrimento a outros que vivem sem braços e aproveitam a vida tirando as melhores conclusões dela. É importante considerar que o tempo e uma série de outros fatores, como apoio social, família, fé, valores internos, são importantes para que o indivíduo que for ocasionado por uma situação de perda, seja de que natureza for, se reconcilie e consiga em tempo curto ressignificar o fato. Resiliência, melhor definindo, é uma questão de reconciliação, é estabelecer a harmonia e voltar a naturalidade.

Um caso que retrata bem o exemplo de resiliência foi o ocorrido com uma professora carioca, no ano de 2003, quando teve as duas pernas extirpadas pelas hélices de uma lancha que colidiu com o banana boat em que passeava numa praia do litoral do Rio de Janeiro. Ela não foi socorrida pelo infrator, que ainda tirou a vida de um estudante de 16 anos no mesmo acidente. A professora relatou que ficou chocada e triste, sentiu-se violentada, o que é normal devido ao choque, ademais ela é humana. Para ela andar durante a recuperação foi difícil, caiu várias vezes em diversos lugares ao tentar sair sozinha, pois houve uma perda, mas logo ela ponderou que não teria mais as pernas de volta, portanto não adiantaria ficar na cama chorando. Foi aí que ela decidiu usar e energia dela para mudar o roteiro da própria história. Afinal, tinha de cuidar da família e de si mesma.

Mas a vida para ela não parou por aí. Essa mulher surpreendeu muita gente pelo otimismo que encarou tal situação. Ela relatou que o marido, a família, os filhos e a espiritualidade foram fundamentais como apoio para a recuperação que teve. Certa vez uma repórter perguntou se ela não tinha momentos de tristeza. Ela disse que sim, mas não entrava em depressão. Sempre que percebia um pouco de tristeza, ela dizia a si própria para levantar a cabeça. Essa é uma postura que nem todas as pessoas conseguem manter, devido ao grau de resiliência que possui.

Houve momentos cruciais na vida dessa professora. Um deles foi na hora do acidente, quando ela viu e sentiu uma perna sendo cortada, a ponto de exclamar a Deus que tirasse a outra, mas que não tirasse a vida dela, e permaneceu lúcida durante todo o tempo. Outro momento marcante foi quando ainda no hospital, ela recebeu a primeira visita do marido que só conseguiu visita-la após um período, e quando adentrou no quarto, chegou chorando. Ela então pediu a ele que não chorasse e que não se prendesse ao que ela tinha perdido, mas sim ao fato dela estar viva. Ela frisou a ele que só havia perdido as pernas, nada mais. E preferiu não entrar em depressão para não prejudicar a própria família, que a princípio ficou chocada. Talvez esse exemplo deixa bem claro o que é ser resiliente. Foi o poeta Carlos Drummond de Andrade quem disse que “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”.

Então a professora preferiu viver sem o sentimento de perda. Já no carnaval do ano seguinte ela desfilou na escola de samba Tradição mesmo na cadeira de rodas, e foi aplaudida pelo exemplo. Ela relatou que a ocorrência desse episódio na vida dela a fez deixar de ser apegada a coisas materiais e se tornou menos ciumenta. Despertou a vontade de ajudar outras pessoas amputadas e trabalhar para defender os direitos dos deficientes. Após ganhar uma bolsa para cursar fisioterapia numa Universidade, idealizou abrir uma clínica e doar próteses a quem não tem condição de pagar. Depois que muita gente passou a procura-la para dizer que recuperou a vontade de viver após de conhecer a história dela, entendeu que tinha uma missão maior do que antes.

Também numa visão institucional, empresas resilientes são aquelas que mesmo frente à concorrência, à mudança de mercado ou crises internas, conseguem dar a volta por cima, sobressaem a momentos difíceis por meio de planos estratégicos, investimento e, principalmente, com visão de futuro e esforço. E ao avaliar habilidades e competências de uma equipe, a resiliencialidade é um comportamento importante para a promoção de líderes, assim como para conquista de novas oportunidades. Afinal, como tem sido o seu comportamento, esse elástico aspecto da individualidade, frente às crises?


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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