SÓ
DE PASSAGEM
Artigo de Jair Donato*
Há
momentos em nossa vida em que a reflexão é necessária. Não raro, o
relacionamento entre as pessoas se torna aversivo pela maneira como se portam,
ao considerarem ou desconsiderarem o que somente a elas faz sentido. A empáfia,
a presunção, sentimentos de grandeza e de indestrutibilidade física são algumas
dessas maneiras que compraz a muitos na convivência interpessoal. Há gente que se
caracteriza por uma vida de egoísmo sem precedentes, sem se dar conta do âmbito
coletivo, tampouco das próprias origens.
Afinal,
de onde mesmo é que viemos? Para onde iremos? Por que estamos aqui? E nós, quem
realmente somos? Ao recorremos a essas questões filosóficas imanentes nos
primórdios na consciência humana, descobrimos que falta ao homem contemporâneo uma
convivência melhor consigo, com os demais à volta dele e com o meio ambiente em
que vive. Há gente que presunçosamente se dirige a quem estiver próximo e
questiona: “Você sabe com quem está falando?” E dessa forma age com uma falsa
superioridade descomunal, embora ache isso natural. Há ainda quem se
dessensibiliza só pelo fato dos títulos recebidos ou da posse de bens
materiais, pensando serem valores eternos. É daí que surge a fonte do apego e a
defesa em prol do que detém, como se cada um fosse humanamente imortal.
Há uma narrativa de um famoso místico que certa vez chegou
ao palácio de um governante local. E por ele ser uma figura pública na região, os
guardas permitiram que adentrassem ao local e se aproximasse do soberano. “Gostaria
de passar a noite aqui”, disse o visitante. Ao que respondeu o monarca: “Mas
isso não é um hotel”. Então o místico travou um questionamento ao rei iniciando
por perguntar sobre quem era o dono daquele palácio, antes dele. Ao que o recebeu
a resposta:
- Era do meu pai, e ele já morreu.
- E quem era o dono, antes do seu pai? Novamente
interpelou o visitante.
- Meu avô. Ele também está morto.
- Então este é um lugar onde as pessoas ficam um
pouco, e depois vão embora. Não é a mesma coisa que um hotel? Diante da coragem
e da sabedoria daquele sábio, o soberano permitiu que ele ficasse
hospedado ali durante o tempo que desejasse.
Analogamente,
assim é o ser humano e bom seria se entendesse isso sem resistência. Assim,
poderia viver melhor se não dispusesse do apego nas relações e aos bens
materiais pertencentes temporariamente enquanto vive na terra, pois cada um de
nós fica só um pouco por aqui, e zarpamos. Independente da crença que cada um
possui, todos sabem que a vida no aspecto físico encerra-se com o processo da
morte. Então, por que será que as pessoas perdem tempo ao acumular coisas
perecíveis, como bens materiais e se tornam cheias de vasilhames físicos que só
aumenta o peso da própria caminhada? São muitos os que acabam por não viverem
tranquilos devido ao medo de serem usurpados, mas também não desfrutam de nada
após despedirem-se deste mundo.
Conta-se que certa vez
um turista de uma nacionalidade distante em visita a uma cidade egípcia,
chegou naquele local com o objetivo de
visitar um sábio famoso. O turista
ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco. Então, perguntou
o turista:
- Onde estão seus
móveis? - E o sábio, bem depressa, perguntou também:
- E onde estão os
seus?
- Os meus? -
surpreendeu-se o turista.
- Mas eu estou aqui só
de passagem!
- Eu também! Concluiu
o sábio.
E
assim estamos por aqui, só de passagem também. Resta alguma dúvida? Por que
então há quem perde tempo com atitudes avarentas, presunçosas, sentindo-se
superior aos demais, humilhando-os e exaltando a posição social ou valores materiais?
Talvez a consciência e a moral sejam as únicas dimensões em que perduraremos
independente da condição física, mortal e temporária do momento. A estada aqui
é rápida, todos só estão de passagem.
Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

Um comentário:
Amo seus textos, sempre tem algo que nos ensina . Abraços
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