Total de visualizações de página

domingo, 20 de abril de 2014

IMPERMANÊNCIA
Artigo de Jair Donato*

Há um conto budista de um famoso mestre espiritual que se aproximou do portal principal do palácio real. Nenhum dos guardas tentou pará-lo, constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se até onde o monarca estava solenemente sentado no trono.

"O que vós desejais?" perguntou o rei, imediatamente reconhecendo o visitante.
"Eu gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria," replicou o mestre.
"Mas aqui não é uma hospedaria, bom homem," disse a majestade, "Este é o meu palácio."
"Posso lhe perguntar a quem pertenceu este palácio antes de vós?" perguntou o mestre.
"Era do meu pai. Ele está morto, retrucou o rei."
"E a quem pertenceu antes dele? Continuou o sábio"
"Foi do meu avô," disse o rei já bastante intrigado. "Mas ele também está morto."
"Sendo este um lugar onde pessoas vivem por um curto espaço de tempo e então partem, vós me dizeis que esse lugar não é uma hospedaria?"

O que há de análogo nesse conto é que a humanidade ainda age de modo semelhante ao citado monarca, como se a grande casa que é o planeta em que habita, fosse propriedade exclusiva que pudesse ser explorada sem abrigar a todos, e sem consequência alguma. Essa história não fala da residência individual de cada um. É uma analogia que se refere ao grande lar natural disponível a todos para que se abriguem, com muitas dependências e alimentos, ar puro, biomas, água a vontade, muitos frutos e flores, vegetais, peixes e uma diversidade de recursos naturais incomensuráveis.

Mas o que será que está acontecendo? Pois nem todos valorizam esta casa. O ar já está poluído, o clima está ficando mais quente, diversos cômodos sendo alagados, outros tantos desertificados. Desde o século XX há larga emissão de gases poluentes que superaquece o planeta. Muitos apenas exploram e comercializam os recursos limitados da natureza,  sem que benefício socioeconômico e ambiental sejam proporcionais. Por que alguns se intitulam como donos deste palácio e o governam como tal, enquanto a maioria vive como se no porão estivesse? Seria a falta de percepção que este caminho é bilateral.

O homem como hospedeiro da Terra tem descuidado muito deste lugar. Já não seria a hora de cada um repensar e mudar, antes que seja tarde? Afinal, o homem nunca foi nem será o centro do Universo, pois o planeta não é um elemento periférico. O que dirão os netos e as gerações futuras sobre os que não optarem pela mudança hoje?

A impermanência, ou seja, a mudança, considerada o ensinamento básico do budismo, é uma reflexão de que há a inexistência de uma entidade apenas individual. Tudo muda, essa é uma verdade básica que ninguém pode negar.  A essência de cada experiência e a natureza de toda existência é a própria mudança. A perene verdade é que tudo muda, seja na relação do homem com ele mesmo, com o outro e também com o meio ambiente em que vive.

Então, por que o ser humano tem dificuldade de desapegar-se e aceitar a mudança, mesmo correndo o risco de perder o palácio em que mora? Não seria essa uma grande causa do sofrimento humano? Refletir sobre a mudança e tornar-se a própria mudança é um caminho para fazer as pazes com o mundo.

*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

Nenhum comentário: