IMPERMANÊNCIA
Artigo de Jair Donato*
Há um conto budista de um famoso mestre espiritual que se aproximou do portal principal do palácio real. Nenhum dos guardas tentou pará-lo, constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se até onde o monarca estava solenemente sentado no trono.
"O
que vós desejais?" perguntou o rei, imediatamente reconhecendo o
visitante.
"Eu
gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria," replicou o
mestre.
"Mas
aqui não é uma hospedaria, bom homem," disse a majestade, "Este é o
meu palácio."
"Posso
lhe perguntar a quem pertenceu este palácio antes de vós?" perguntou o
mestre.
"Era
do meu pai. Ele está morto, retrucou o rei."
"E
a quem pertenceu antes dele? Continuou o sábio"
"Foi
do meu avô," disse o rei já bastante intrigado. "Mas ele também está
morto."
"Sendo
este um lugar onde pessoas vivem por um curto espaço de tempo e então partem,
vós me dizeis que esse lugar não é uma hospedaria?"
O
que há de análogo nesse conto é que a humanidade ainda age de modo semelhante ao
citado monarca, como se a grande casa que é o planeta em que habita, fosse
propriedade exclusiva que pudesse ser explorada sem abrigar a todos, e sem
consequência alguma. Essa história não fala da residência individual de cada
um. É uma analogia que se refere ao grande lar natural disponível a todos para
que se abriguem, com muitas dependências e alimentos, ar puro, biomas, água a
vontade, muitos frutos e flores, vegetais, peixes e uma diversidade de recursos
naturais incomensuráveis.
Mas
o que será que está acontecendo? Pois nem todos valorizam esta casa. O ar já
está poluído, o clima está ficando mais quente, diversos cômodos sendo alagados,
outros tantos desertificados. Desde o século XX há larga emissão de gases
poluentes que superaquece o planeta. Muitos apenas exploram e comercializam os recursos
limitados da natureza, sem que benefício
socioeconômico e ambiental sejam proporcionais. Por que alguns se intitulam
como donos deste palácio e o governam como tal, enquanto a maioria vive como se
no porão estivesse? Seria a falta de percepção que este caminho é bilateral.
O
homem como hospedeiro da Terra tem descuidado muito deste lugar. Já não seria a
hora de cada um repensar e mudar, antes que seja tarde? Afinal, o homem nunca
foi nem será o centro do Universo, pois o planeta não é um elemento periférico.
O que dirão os netos e as gerações futuras sobre os que não optarem pela
mudança hoje?
A
impermanência, ou seja, a mudança, considerada o ensinamento básico do budismo,
é uma reflexão de que há a inexistência de uma entidade apenas individual. Tudo
muda, essa é uma verdade básica que ninguém pode negar. A essência de cada experiência e a natureza
de toda existência é a própria mudança. A perene verdade é que tudo muda, seja
na relação do homem com ele mesmo, com o outro e também com o meio ambiente em
que vive.
Então,
por que o ser humano tem dificuldade de desapegar-se e aceitar a mudança, mesmo
correndo o risco de perder o palácio em que mora? Não seria essa uma grande
causa do sofrimento humano? Refletir sobre a mudança e tornar-se a própria
mudança é um caminho para fazer as pazes com o mundo.

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