TECNOLOGIA
AFASTA AS PESSOAS?
Artigo de Jair Donato*
O mundo virtual torna mesmo os relacionamentos
mais frios? Há quem defende que atualmente as pessoas estão cada vez mais se
isolando devido a conectividade com o mundo nesta era do advento das redes
sociais que são acessadas de forma ininterrupta pelos dispositivos móveis, um meio
comum a maioria e por vezes exageradamente utilizado por usuários de quase
todas as idades.
Expressões como “antigamente as
pessoas conversavam mais” ou “as pessoas estão ficando mais frias, não se
aproximam mais”, geralmente são expressas com tons saudosistas, como se sentimentos
fossem coisas só do passado e o ser humano daqui por diante perdesse a
faculdade de sentir. Mas, será mesmo que em detrimento da tecnologia o homem
perderá a capacidade de se relacionar uns com os outros e se tornará insensato?
Vou ilustrar com um episódio que
presenciei em um restaurante. Certa mãe chegou com um casal de filhos de
aproximadamente cinco anos de idade, cada um. Ao sentarem-se à mesa, o pai veio
depois, percebi que o garçom ao atender ao pedido da mãe até o momento em que ele
serviu a todos, as crianças ficaram conectadas cada uma com o próprio tablet, sem se falarem, e a mãe como se
estivesse sozinha. Então imaginei que ao serem servidos pelo garçom aquela mão
iria solicitar que os filhos guardassem os aparelhos eletrônicos para que
enfim, saboreassem a refeição na base da conversa, sem a presença do wi-fi, só no tête-à-tête.
Enganei-me. A mãe deixou-os como
estavam. Não sei se daquela maneira ela também se sentia mais livre ou talvez
menos incomodada. O fato é que os filhos comeram com os aparelhos ao lado
competindo com o cardápio que fora servido. E a cena permaneceu até que me
retirei daquele local, reflexivo, é claro.
Presenciar tal fato, o que hoje é
comum em vários ambientes, apenas reforçou o que penso sobre a facilidade que
temos de nos conectar com o mundo através das redes sociais. Não é a tecnologia
que faz com que as pessoas superficializem os relacionamentos. Não são as redes
sociais que tornam as pessoas frias. Definitivamente, não pode ser a Internet a
causa do distanciamento entre as pessoas a ponto de estarem no mesmo ambiente e
não dizerem um “oi” pessoalmente e preferirem trocar mensagens virtuais na
enorme variedade de aplicativos que existem. Antes, isso é uma questão de
educação, de valores pessoais.
O que faz as pessoas se afastarem
e parecerem “frias” é a falta da capacidade de se adequarem a esse novo estilo
de vida, em que o mundo perde paredes e fronteiras, onde tudo se torna
interligado. É a falta de equilíbrio ao fazer uso daquilo que facilita a vida
nos dias atuais, como é o caso da tecnologia. É o ser humano que está
despreparado para lidar com a tecnologia de maneira coerente, e não o
contrário. Não há que culpar o avanço tecnológico, e sim superficialidade a que
se propõe ao lidar com esse novo estilo de vida, algo que é irrefutável, e não
vai deixar de existir porque no passado não era assim. O adulto precisa se
reeducar para lidar melhor com essa realidade. Pois, para as crianças isso não
é nenhum problema, o que elas precisam é de uma orientação sobre o que é
equilíbrio e adequação.
É natural a humanidade passar por
transformações no decorrer do tempo, sempre que crescem as necessidades
humanas. Mas o que se torna antinatural é a falta de adaptação aos novos
ritmos. Vejo que o maior problema está na falta de sensatez na hora de se
adaptar, o que é uma característica interna, e não na tecnologia ou nos
dispositivos, que são periféricos tanto quanto perecíveis.
Talvez o equilíbrio esteja em não
ser o primeiro a adotar uma nova tecnologia, mas que também não seja o último a
abandonar um velho hábito. Não adianta desejar o passado de volta nem reclamar do
presente. Velocidade e conectividade são os novos ritmos na mesma intensidade
que surgem as novas gerações. O jeito é se adaptar e reeducar-se.
*Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

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