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quinta-feira, 10 de julho de 2014

DESAPEGA
Artigo de Jair Donato*

O apego a antigos paradigmas, conceitos, crenças ou rituais de outras épocas pode ser um entrave ao desenvolvimento moral, profissional e pessoal do homem. É o que pode ocasionar a perda do foco naquilo que é essencial para viver bem. Cada povo e cada momento exige uma ética adequada aos valores que são desenvolvidos em decorrência da maneira como se estabelece o homem. É importante pensar sobre essa questão. Quais os valores, simbologias, conceitos e crenças que norteiam suas atitudes?

Há um conto zen budista sobre um mestre que criava no mosteiro um gato o qual era muito estimado por ele. Então, durante as aulas de meditação juntamente com os discípulos, o gato que vivia no monastério fazia tanto barulho que os distraía.
Daí o professor ordenou que durante a prática o bichano fosse amarrado próximo a eles no galho de uma árvore. E assim se sucedeu por décadas.

Certa manhã, o mestre já bem idoso apareceu morto. O discípulo mais graduado ocupou o lugar dele e o gato continuou a ser amarrado durante a meditação como homenagem à lembrança do antigo instrutor. Mais tarde, o gato morreu. Mas, os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a presença dele que arranjaram outro felino que também era mantido amarrado durante as práticas diárias.

Mais anos se passaram e o segundo mestre morreu, outro discípulo assumiu o lugar dele. Tempos depois o outro gato também morreu e logo foi substituído. E assim perdurou por séculos. Cada vez que um gato morria, havia uma eleição para a escolha de outro gato. Dedicavam muito tempo para definirem em conselho as caraterísticas do novo gato como linhagem, cor, comida ideal e tamanho do gato. Era escolhido ainda o tipo de árvore e espessura do galho em que ele deveria ser amarrado, o modelo do nó, o material da corda, etc. Enfim, o ritual de escolha se tornou a atividade mais importante.

Uma geração se passou e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importância do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu uma tese, aceita pela comunidade acadêmica, que o felino tinha capacidade de aumentar a concentração humana e eliminar as energias negativas. E assim, durante um século, o gato foi considerado como parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região. Enquanto isso, outros templos começaram a introduzir gatos nas meditações. Pois se acreditava que o gato era o verdadeiro responsável pela fama e a qualidade do ensino daquela espécie de meditação e esquecia-se que o antigo mestre era um excelente instrutor e que a meditação era o mais eficiente.

E quantos de nós, no cotidiano repetimos movimentos sem ao menos questionarmos a razão de agirmos de tal modo? Um hábito mesmo que faça sentido para uma época, com o passar do tempo, e por gerações subsequentes, perde a referência de origem e se transforma em tradição, institucionaliza-se sem finalidade concreta e chega a se tornar inquestionável. Após descobrir os moldes que norteiam suas crenças, veja quais já se perderam com o passar do tempo. Quantos deles deverão ser ressignificados? Outros quantos se tornaram desnecessários e limitantes. Outros quantos ainda atrapalham seu desempenho na vida? Essa é uma reflexão que poderá torna-lo melhor. O desapego a velhos hábitos é a chave para a mudança de paradigmas e obtenção de melhores resultados. Desapegar-se é um valor de ordem concreta. Então, por que não buscar uma maneira diferente de agir?


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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