CANTO DE CERCA
Artigo de Jair Donato*
Uma
dos relevantes critérios avaliados nos processos de seleção de profissionais
para o mercado de trabalho e na promoção de carreira é a inteligência emocional.
É o comportamento ligado às emoções que cada um demonstra não apenas nos
momentos de tensão ou situações extremas, mas principalmente nas relações
interpessoais do dia a dia. Pois é nesse contexto que cada um se expressa
naturalmente motivado pela gama de atitudes repetitivas que possui. A falta de
paciência e expressão de opiniões em momentos inapropriados resulta em
depoimento contra si próprio, o que pode impedir de um crescimento na carreira
ou no mínimo, ser bem visto dentre os demais com quem se relaciona.
Existe
uma expressão utilizada em algumas regiões para se referir as pessoas que agem
grosseiramente, de maneira áspera, indelicada e inflexível. Tais indivíduos
recebem a adjetivação de “canto de cerca”. É um termo pouco agradável empregado
a alguém que na maioria das vezes se dirige aos outros de maneira deselegante
ao invés de solicitar educadamente e com paciência. Expressões simples como
“com licença”, “por favor” e “obrigado” não são costumeiras no vocabulário
dessas pessoas. Quando algo ou alguém não corresponde às expectativas delas, o
contra ataque é imediato, na impulsividade.
A
falta de controle das emoções é inerente a esse perfil pouco maleável que está
inserido dentro de muitas organizações de trabalho. Por vezes tal comportamento
resulta de uma educação pouco delicada recebida ainda na infância, outras vezes
pela convivência que foi atuando como molde no decorrer das experiências do
complexo meio social. Pode também provir de fatores de ordem psicológica que
levam o indivíduo a se portar de tal modo, atuando de forma pouco empática, impositiva
e rude.
Quem
possui esse perfil geralmente possui dificuldades no desempenho como negociador
ou mediador de conflitos, também encontra dificuldade para manter relacionamentos
em médio e longo prazo. Até mesmo o diálogo não é uma tarefa fácil caso o
interlocutor se posicione numa linha de pensamento crítica ou oposta a dele.
Uma
simples impostação da voz incomoda e pode assustar os membros da equipe de um
chefe que age assim com ritmo áspero, inóspito ao lidar com pessoas e processos,
seja empresa ou no convívio familiar. Delicadeza e bom trato ao fechar uma
porta ou ao se dirigir às pessoas é a principal lição que lhe falta. Na
verdade, quem age dessa maneira nem sempre está em conformidade com a própria
natureza, pois vive em contradição consigo mesmo e com aqueles com quem
convive.
Um
tom grosseiro não coaduna necessariamente com fortaleza interna ou uma condição
humana bem resolvida. Pode até ser uma expressão inconsciente do quanto é
frágil internamente na relação com o próximo. Pode ser uma expressão de busca
pela coragem para enfrentar a vida. Geralmente o ser humano cerca-se de
carapuças para se esconder da própria fragilidade. Um pouco mais de valorização
a si próprio, quem sabe, poderia ser o caminho para essa questão. É necessário
que o indivíduo seja forte, resista a intempéries, mas que seja tão flexível
assim como é o bambu quando assolado pelo vento. Nas relações humanas, é
possível ser delicado sem ser fraco, ceder sem descaracterizar-se, negociar sem
perder e influenciar sem impor. Afinal, o que seria de uma cerca se tivesse
apenas os cantos?
*Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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